Entrevista do Mês

"Angela Baduel-Crispin"
Designer de jóias
E-mail: ange.est.la@wanadoo.fr

Sou Brasileira, designer de jóias morando na França ha quase 19 anos. Cresci entre o Hawaii e São Paulo. Estudei no Mackenzie - me formando do colegial com um diploma de decoração. Em seguida fiz um ano de Artes Plásticas na FAAP, antes de voltar para o Hawaii e vir parar na França para terminar a faculdade e receber um diploma de Ciências Políticas Internacionais da American University of Paris e finalmente poder voltar à arte. Fiz o curso de um ano de fabricação de jóias na Formation HBJO e em seguida 3 anos entre fabricação e esmalte na escola Nicolas Flamel, ambas muito reconhecidas no ramo em Paris.
Faço jóias ha mais de 15 anos e trabalho com prata desde 1993. Faz 3 anos que eu tenho concentrado meu trabalho em desenvolver peças em metal clay - cerâmica de prata ( termo genérico pois atualmente existem 2 marcas no mercado mundial : Precious Metal Clay e Art Clay ), integrando também outros materiais como, por exemplo, a cerâmica plástica, esmalte, e objetos naturais. Fiz os cursos de certificação primeiro na Inglaterra, e em seguida nos Estados Unidos diretamente com o Rio Rewards Program e depois com o PMC Connection. Sou a única pessoa atualmente na França trabalhando profissionalmente com esse material e ensinando como usá-lo. Gosto muito de fazer peças reversíveis ou transformáveis, e tenho desenvolvido varias peças com fechos aparentes, integrados no design.

 

Portal das Jóias: Qual é sua formação profissional?
Angela Baduel-Crispin:
Minha formação profissional não e uma formação formal e tradicional como muitos, mas um conjunto de persistência, esforço, muito trabalho e garra para chegar a poder trabalhar com o que eu mais amo. Gostaria de pensar que ao me expressar artisticamente e criar uma jóia eu possa tocar a emoção de uma pessoa e permitir a ela de encontrar sua própria expressão através de seu uso.

Meu caminho desde pequena sempre foi o das artes. Meu pai, Americano era arquiteto, minha mãe, brasileira, tradutora juramentada. Ambos me influenciaram muito nas minhas escolhas e na minha maneira de ver a vida, sempre com uma abertura internacional junto a uma visão de harmonia estética e espiritual.
Entrei na faculdade no Brasil, e fiz um ano de Artes plásticas na FAAP. Durante esse ano fiz um curso de desenho de jóias na IBGM de São Paulo. Nessa época fiz um anel e um broche que mandei realizar em prata e ouro, um com uma pérola do Taiti, e o broche com uma placa de olho de tigre. Mas ainda não sabia fabricar minhas próprias pecas e isso me fascinava. No final daquele ano de faculdade, eu voltei ao Hawaii, onde tinha passado minha infância, e acabei estudando Ciências Políticas Internacionais. Isso me trouxe à Paris para acabar a faculdade na American University of Paris. Recebi meu diploma em 1990.
Um mês depois de minha formatura estava programado meu casamento no Hawaii e precisava de brincos mas nada me agradava. Acabei comprando umas miçangas e argila e fiz meus próprios brincos. Sobrou material, então acabei fazendo algumas peças que tiveram sucesso na minha lua de mel ! Foi uma revelação e uma alegria poder criar novamente. Voltei do Hawaii com meu marido decidida a aprender o máximo possível sobre fabricação. Comecei com livros para aprender a trabalhar com resina, inventando coisas no caminho como colocar pó de alumínio, cobre ou latão para dar à resina efeitos metálicos. Dois anos depois consegui entrar na « Formation HBJO », uma escola muito respeitada que forma curso que forma joalheiros e que oferece formação continua para adultos. Este foi o primeiro grande passo que me permitiu aprender as técnicas de base, com os reflexos e gestos necessários para uma boa execução. Fiz em seguida 3 anos do curso Nicolas Flamel, também muito conhecido no ramo aqui, com aulas noturnas para adultos de fabricação e de esmalte.
Em seguida continuei meu próprio trabalho, buscando uma visão mais pessoal.
Em 2003 comecei a trabalhar com metal-clay, ou silver-clay, e viajei para a Inglaterra para passar uma primeira certificação, logo em seguida senti necessidade de passar uma certificação diretamente com o principal grupo que desenvolveu o material nos E.U., e voltei logo em seguida para outra certificação com a aplicação do material com outros materiais como a porcelana.

Portal das Jóias: Que tipo de trabalho você desenvolve hoje?
Angela Baduel-Crispin: De uma maneira geral, sou perfeicionista, mas tento não deixar isso me impedir de me expressar livremente e espontaneamente. Neste sentido hoje meu trabalho evoluiu, minha técnica mudou, e acho que o resultado e mais parecido comigo mesma, com minhas imperfeições que, eu espero, talvez ajudem a dar caráter às peças que faço. Me sinto mais à vontade com minhas imperfeições, então a imperfeição se torna uma maneira de expressão pessoal e mais verdadeira. Por isso sinto que meu trabalho e mais autentico do que antes. Isto também e ligado ao fato de eu ter decidido concentrar meu trabalho ao uso de metal-clay, pois seu trabalho e diferente e permite outras formas de expressão, mas com um resultado de metal precioso. Em comparação com o trabalho tradicional, este e um trabalho muito mais táctil, mais harmonioso e menos agressivo, eu diria quase afetivo.
Gosto também de misturar materiais diferentes e menos « nobres » com metais preciosos, como por exemplo, objetos encontrados, madeira, cerâmica plástica, ou qualquer outra coisa que me inspire uma idéia.


Portal das Jóias: Como foi o início de sua carreira como designer de jóias? Quais as maiores dificuldades?
Angela Baduel-Crispin: Difícil, frustrante, desafiador, mas eu tenho cabeça dura e idéia fixa.
E preciso saber que decidi entrar num ramo fechado, num pais que não era meu, e isso só após 3 anos no pais, e falando mais Inglês do que Francês devido aos meus estudos na faculdade Americana. Tudo isso sem ter seguido o caminho « normal Francês » de uma formacao tradicional predefinida aos 15 anos de idade através de um colegial técnico.
Outro detalhe importante é que o setor da fabricação de jóias aqui na França, e isso mais ainda ha 15 anos atrás, é um ramo praticamente exclusivamente masculino
Os adolescentes que entram nessas poucas escolas privilegiadas são em geral filhos de profissionais do ramo. Além disso, e um segmento muito protegido, onde a informação não circula facilmente. Hoje em dia as coisas já mudaram muito e continuam mudando, mas minha experiência não foi fácil.

Portal das Jóias: Como é visto o designer brasileiro hoje na Europa e qual a participação e inspiração hoje do Brasil na França?
Angela Baduel-Crispin: O Francês adora o Brasil e o brasileiro. De modo geral, o Brasil transpira alegria, leveza, e naturalidade. Quando se pensa no Brasil várias imagens, algumas bem contraditórias, se passam pela cabeça do Europeu. Essas imagens passam pela riqueza natural e a conseqüência mundial de sua preservação, à pobreza total e seu contraste de primeiro mundo moderno. Pensa-se também na eterna imagem de futebol e carnaval, mas isso esta evoluindo, graças à artistas e designers de nível internacional que conseguem abrir janelas para o Brasil.

O ano do Brasil na França em 2005 foi uma excelente oportunidade para o Brasil mostrar seus vários aspectos através de exposições e eventos de diversos tipos pelo pais, algumas mais indígenas, ou populares, outras mais modernas. O Brasil estava presente em toda esquina, em revistas, no metro, televisão, jornais, rádios, museus !
Várias galerias de arte expuseram trabalhos de designers conhecidos, como por exemplo os irmãos Campana com os móveis design de espírito reciclado, mas de alta qualidade.
Participei de um salão de artes em Paris onde o Brasil foi convidado de honra, e vários brasileiros fizeram a viagem para expor seu trabalho artístico e artesanal. A organização francesa deixou um pouco a desejar, mas as obras dos artistas foram de alto nível. Artistas brasileiros com seus quadros, esculturas, instalações, cerâmica e artesanato vieram representar vários aspectos do Brasil de hoje ao público francês.
Acho que esse ano de 2005 permitiu contagiar, nem se quer só um pouquinho mais o francês com o calor humano brasileiro, enquanto também permitiu uma visão maior, abrindo o mundo ao design de alto nível, original, refrescante e « Jovem », muito além do futebol e carnaval.
Em relação ao setor, eu mesma descobri algo típico do Brasil que até então não conhecia – o capim da serra como elemento / miçanga a ser integrada em bijuteria ! Essa visão e expressão típica e muito interessante, e abre outros horizontes ao artista brasileiro que mantém uma certa expressão cultural no seu trabalho. Se via também « fuxico » em toda parte !


Portal das Jóias: Como é ser brasileira e desenvolver um trabalho como designer no maior centro de moda do mundo?
Angela Baduel-Crispin: Ser brasileira aqui e ótimo. Aliás, ser brasileira em qualquer lugar e ótimo. De um modo geral, as pessoas tem uma imagem do Brasil bem positiva de um povo alegre e colorido, em todos os sentidos. Lógico ha estereótipo, mas isso e inevitável, e cabe a cada um de nos ao entrarmos em contato com pessoas estrangeiras de sermos embaixadores de alto nível do nosso pais, mostrando que há mais para ser ver do que só samba ! Mas esse lado exótico, e essa visão que o brasileiro tem, sempre com jogo de cintura e uma risada alegre mesmo em horas difíceis e conquistador no mundo todo.
A competição aqui e grande, como em toda grande capital, mas acho que o principal e guardar o foco e seguir seu próprio caminho, pois essa sinceridade e transmitida no trabalho que fazemos. Fora que não e possível agradar todo mundo, então ai que entra o foco e integridade consigo mesma de não se deixar influenciar, e seguir seu caminho. E trabalhar, trabalhar muito, ter um nível de trabalho respeitável e saber escutar as oportunidades que a vida nos dá de maneira sutil. E ai, como diria meu irmão, mergulhar do lado fundo da piscina pois ai não se bate a cabeça. Isso em qualquer pais do mundo. A vantagem e que em Paris somos expostos de maneira constante à reflexão, à novas idéias, a possibilidades, então isso alimenta a criatividade. Mas também e preciso conseguir se afastar disso para poder digerir, assimilar e produzir com sua própria voz.


Portal das Jóias:
Quais as feiras e eventos mais importantes da França hoje e existe a participação de brasileiros?
Angela Baduel-Crispin: As principais feiras abertas só para profissionais, e diretamente ligadas à jóias são Bijhorca, Print’Or, Orhopa e Première Classe, mas existem outras, talvez um pouco menos mediatisadas. Em seguida existem outras como Maison et Objet, com alas especiais para artesãos de arte. E depois as feiras abertas ao público como a Foire de Paris, ou Artisanat Passion, que são algumas das maiores, tambem com ala especial para artistas das « arts appliqués », e depois varias menores o ano todo.

No ano passado muitos brasileiros vieram, e participaram de feiras e salões profissionais como Bijhorca ou Maison et Objet, mas a divulgação de brasileiros menos conhecidos internacionalmente ainda precisa ser trabalhada, na minha opinião, mas isso depende muito de cada um. Ao mesmo tempo, um evento tão especifico quanto o Ano do Brasil permitiu um primeiro contato do designer brasileiro com o público francês, e sei que, por exemplo, vários artistas que expuseram comigo em dezembro conseguiram contrato de representação por longo período aqui.


Portal das Jóias: Na sua opinião qual a diferença em relação à moda e acessórios do designer brasileiro na Europa?
Existe algo que precisa ser melhorado? Como?

Angela Baduel-Crispin: O Brasileiro tem uma noção muito natural de estética. Aprende desde cedo a se virar com pouco para fazer o melhor possível com o que tem. Sabe desde pequeno o que e ter charme, e isso transparece no trabalho que faz.

Tem em suas mãos uma riqueza natural quase sem limite, e uma energia de adaptação enorme. O design é de espírito jovem e de bom gosto. As jóias Brasileiras são das mais originais que vejo. Existem peças feitas por certos designers brasileiros que são de um nível internacional altíssimo. De modo geral, em termos de design, acho o Brasil lá em cima com a Itália ! Mas com uma vantagem enorme de ter uma visão menos tradicional, menos apegada ao passado, e isso e uma das grandes vantagens de ser um pais mais jovem. A contrapartida e a de nem sempre saber valorizar seu passado, seu patrimônio, sua historia e seu potencial para assim poder preserva-lo e se desenvolver a partir dele. Penso nos prédios do centro da cidade de São Paulo, que só recentemente começaram a valorizar, mas também na própria floresta. O europeu e muito apegado ao passado, à historia, o que e ótimo e permite justamente essa continuidade cultural e intelectual, só que também serve de freio. O ideal então, na minha opinião, e um bom meio termo, onde se aprende com as experiências passadas, se valoriza o que tem como patrimônio cultural, material e espiritual, mas usa isso para descobrir outros caminhos, novos horizontes, tanto no design quanto na vida.
O principal defeito do brasileiro, pelo menos no passado, tem sido acabamento e cuidado com detalhe. E preciso ir além da aparência e « olhar a costura », virar literalmente a coisa do avesso. E não fazer a coisa de qualquer jeito, às pressas. Poder garantir continuidade e evolução no seu trabalho também e importante , o que nem sempre e fácil numa situação econômica menos estável.


Angela e seu atelier


Portal das Jóias:
Fale-nos sobre o metal-clay. Qual a principal diferença desse material para o que conhecemos mais aqui no Brasil que é o Fimo e agora o Art-clay.
Angela Baduel-Crispin: A Fimo e uma massa à base de polymer, um derivado de PVC ou petróleo, uma matéria criada industrialmente resultando num produto plástico maleável com um plastificador liquido que endurece ao ser esquentado num simples forno de cozinha. As suas cores neutras, transparentes, metálicas ou vibrantes permitem uma variedade enorme de efeitos originais tanto em termos de criação quanto em termos de textura ou imitação de outros materiais naturais como marfim, coral, turquesa, etc. Existem varias marcas no mercado, Fimo, Sculpey, Kato Clay, etc. mas acho que atualmente no Brasil a mais conhecida e a Fimo, que e de fabricada pela firma alemã Eberhard Faber.
Assim como « cerâmica plástica » e um termo neutro para se falar do produto acima, « metal clay » e um termo genérico que designa um material maleável com partículas microscópicas de 99.9% de prata pura misturada com uma liga inteiramente natural e não tóxica que, após a queima à alta temperatura ( entre 600 -900°C ), desaparece deixando somente um objeto de prata pura e totalmente sólido.
Atualmente, existem somente 2 marcas: a Art Clay Silver, e a Precious Metal Clay. Muitos fazem a analogia entre Coca-cola e Pepsi. Pois são similares, mas a que se escolhe e uma questão de preferência ou de primeiro contato, mas os produtos são relativamente próximos, e o resultado e o mesmo = 99.9 % de prata pura. A qualidade do produto final vai então depender de como se trabalha com o material, respeitando os parâmetros de temperatura/tempo de queima de cada marca, e integrando as qualidades da Metal Clay na estrutura da peça.
O Precious Metal Clay foi a primeira marca produzida no Japão a ser criada e patenteada mundialmente. Suas técnicas e seus produtos foram introduzidos nos U.S.A há 10 anos atrás e foram altamente desenvolvidos graças a um grupo de artistas e joalheiros guiados por Tim Mc Creight, joalheiro avant guardista, escritor de vários livros técnicos sobre jóias nos U.S.A, que conheço pessoalmente e ótima pessoa.
Hoje a marca PMC tem produtos variados, inclusive o mais recente que e a « argila » de ouro 22 K que pode ser usada juntamente com « argila » ou « cerâmica » de prata e queimada à mesma temperatura, o que antes era impossível.
Em seguida foi se criada a Art Clay Silver, que por sua vez seguiu com produtos muito similares, desenvolvendo também alguns produtos específicos de sua própria marca, como a « Oil Paste », que e um produto ótimo para unir duas peças já queimadas ou para preencher raros vãos que possam aparecer apos queima.
Essas duas marcas continuam a crescer e as duas marcas continuam a desenvolver diversos produtos. Este ano em Julho haverá a 3ª Conferência Internacional de PMC. E um evento organizado cada dois anos. Participei da primeira conferencia.

Portal das Jóias: Qual a sua opinião sobre o trabalho que o Portal das Jóias desenvolve na internet no segmento?
Angela Baduel-Crispin: Tenho grande prazer em receber o Portal das Jóias e me manter a par dos eventos e acontecimentos no Brasil no segmento. Morando longe, este e um dos meios que tenho de me manter informada quanto aos eventos do segmento no Brasil e assim me sentir menos distante. Sinto também que a diversidade dos assuntos tratados permite a todo o setor poder se informar sobre assuntos indiretamente ligados à profissão.

Portal das Jóias: O que está previsto de novo para a próxima estação?
Angela Baduel-Crispin: Aqui e o começo da primavera, e posso já dizer que jóias de prata misturando diversos materiais junto com metais preciosos esta e alta. Pedras de cor e ouro; colares longos tipo « lariat » em inglês ou « sautoir » em Francês. Brincos e colares compridos.
© Copyright Portal das Joias 2002/2005 - Todos os direitos reservados
|Política de Privacidade| |©Lei de direitos autorais|