Que as pedras preciosas são um
notável remédio para determinados problemas
não há a menor dúvida. Se, por exemplo,
aquela morena estonteante não sucumbe ao charme
dos seus olhos azuis, não mude a cor dos olhos;
dê-lhe uma jóia. E, na próxima guerra
conjugal, deflagrada – como toda guerra conjugal - por
um motivo fútil (por exemplo, só por você
ter sido visto, às 3 h da madrugada, ajudando uma
pobre loira indefesa, sem sapatos e levemente embriagada
a achar o caminho entre as mesas de um bar), experimente
dar a sua esposa uma aliança de diamantes. Talvez
isso não gere um armistício imediato, mas
será um ótimo início de conversações
de paz.
Agora, o que você talvez não saiba é
que as pedras preciosas são remédio mesmo,
daqueles que curam doenças reais, sem custar mais
caro que um antibiótico qualquer, desses que são
vendidos sob dezenas de nomes diferentes, mas que, na
verdade, são uma meia dúzia só. É
verdade que, com o tremendo poderio das multinacionais
do setor farmacêutico, as pedras preciosas tiveram
seu uso como medicamento drasticamente reduzido. Mas,
ainda há quem prefira uma esmeralda a um Enteroviofórmio
(que, por sinal, foi tirado do mercado) ou um crisoberilo
a um salbutamol (eu, por exemplo).
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Vejam o caso da ametista. Ametista vem
do grego amethysthos, que significa não embriagado.
Isso porque é ótima para curar ressaca.
Incrível, não é ? A gente gastando
dinheiro com o famoso Engov num estado riquíssimo
em ametista como o Rio Grande do Sul ! (A propósito,
manda a prudência que você não dê
ametistas à loira embriagada citada no início;
sua esposa pode não entender o espírito
da coisa.)
Alguns dizem que a ametista é boa também
como medicação preventiva. Quem bebe em
cálices feito com essa pedra, não fica embriagado,
garantem. Isso faz muito sentido, pois quem é que
pode ter cálices de ametista em casa ? Só
ricos, não é ? E ricos, está provado,
não ficam bêbados, no máximo ficam
alegres.
Uma pedra que já foi muito usada contra a asma
é o crisoberilo. Se você é dos que
gastam rios de dinheiro com fumarato de cetotifeno, metil-xantina,
salbutamol e outras drogas, pode tentar engolir um crisoberilo
de 12 em 12 horas. Se não curar, não tem
problema: no dia seguinte, a natureza devolverá
as pedras e você poderá usá-las como
simples pedras preciosas.
Aristóteles, que sabia das coisas, ensinava que
a esmeralda era boa contra epilepsia. Até há
pouco tempo, era também usada contra febre, disenteria
e até picadas de animais venenosos. Mas, atenção
! Em presença de piranhas, não use esmeraldas.
As piranhas ficam mais perigosas ainda !
No século IV, a esmeralda era considerada fonte
de felicidade (como hoje, né ?) , mas só
devia ser usada na sexta-feira. Diziam também que
se o dono (ou dona) não agisse corretamente ela
se estilhaçaria (Eu estava na costureira, querido
! Ah, é ?! E essa esmeralda quebrada aí
em seu dedo, hem ?). E já houve quem atribuísse
a essa gema a propriedade de tornar o homem solteiro invisível
! (Mas, minha filha, eu não posso fazer o casamento
sem a presença do noivo ! Padre, eu namoro esse
homem há 30 anos e posso garantir: ele esqueceu
de tirar o anel de esmeralda, mas o senhor faça
o casamento que ele vai aparecer já, já.)
Contra convulsões infantis, desde o tempo de Plínio
se sabe que o indicado é a malaquita. E misturada
com vinagre, ensinava ele, é um ótimo anestésico.
Outro anestésico conhecido há milênios
é a menfita, variedade de ônix. Mas, os gregos,
mais poéticos, acreditavam que o ônix era
as unhas de Afrodite (Vênus) cortada por Eros (Cupido)
que caíam sobre a Terra. E mais: consideravam-no
afrodisíaco e fonte de pesadelos, só que
minha santa ignorância não me permite entender
o que uma coisa tem a ver com a outra.
A opala era usada contra mau-olhado, como o é ainda
hoje o âmbar em alguns países europeus (é,
lá também há disso, caríssimos
irmãos subdesenvolvidos...). Depois, a coisa inverteu-se
e passou a ser vista como pedra de mau agouro, até
que se descobriram as valiosas jazidas da Austrália.
Aí, decidiu-se que a opala dava sorte, muita sorte.
E todo o mundo acreditou. Até o Piauí, maior
produtor brasileiro, de onde, dizem, excelentes opalas
são contrabandeadas para serem vendidas como australianas.
Mas, isso não é tudo: ela servia também
para advertir contra o perigo ! Será que emitia
um bip ? Ou, quem sabe, um plim-plim, como a TV Globo
?
Se os gregos eram poetas, os hindus não ficavam
atrás. Para eles, as pérolas eram lágrimas
congeladas nascidas do contato das nuvens com as águas.
E também li que os gregos julgavam delas emanar
forças vivificantes e protetoras. Como grego para
mim é grego, não sei se isso é verdade
ou se há algum erro de tradução nisso
aí.
O rubi era, no século IV, símbolo do amor,
meio que substituído depois pelo dólar.
Era usado contra pesadelos, epidemias, melancolia e fossas
em geral, servindo ainda para aumentar a inteligência
e para eliminar a obesidade.
Acreditava-se que a safira, usada sobre o coração,
proporcionava valentia, e São Jerônimo recomendava
seu uso para proteção contra a ira divina
(Vai, meu filho, teus pecados estão perdoados,
mas, por via das dúvidas, vê se descola uma
safira por aí.) Tão esperto quanto santo,
ele também a recomendava para obter prestígio
junto aos poderosos.
O topázio servia para acalmar a cólera e
para conter hemorragias e é o símbolo da
amizade. O verdadeiro, é claro, porque o que existe
de citrino vendido como se fosse topázio não
é brincadeira.
Também a turquesa freqüentava as farmácias
em priscas eras. Os egípcios usavam-na contra catarata,
contra acidentes e para descobrir se um alimento estava
envenenado. Diziam eles que, colocada diante do veneno,
ela transpirava abundantemente. Seria de medo ?
Por fim, a mais prestigiada das pedras preciosas, sua
majestade o diamante. Famoso e cobiçado como ele
só, não é de estranhar que tenha
gerado várias lendas. Por exemplo: dizia-se que
o diamante tinha que ser usado só no sábado;
se fosse usado na segunda-feira, daria azar. Vai ver isso
era esperteza do Sindicato dos Assaltantes de Gemas para
evitar que seus associados especializados em diamantes
corressem o risco de roubar imitações e
para racionalizar suas atividades, concentrando-a em um
único dia da semana.
Séculos atrás, o diamante era tido como
dissipador de raios e fantasmas e defensor da virtude.
Como se não bastassem todas essas maravilhosas
propriedades, ela ainda teria a capacidade de se reproduzir,
o que estudos genéticos recentes demonstraram não
ser verdadeiro.
Mas, certamente a mais útil de suas propriedades
está ligada a antigos códigos penais. Segundo
o Talmude, doutrina e jurisprudência estabelecidas
por Moisés, se o diamante ficasse embaçado
diante de um suspeito de crime, demonstrava que ele era
culpado. Já pensaram o que isso significaria se
usado no Brasil ? Milhares de processos hoje engavetados
ou na pilha para serem julgados seriam rápida e
facilmente concluídos. Mesmo que não resolvesse
casos mais complexos, ainda assim o diamante seria de
extrema utilidade, já que os casos fáceis
de julgar são justamente os mais numerosos: sanguessugas,
mensalão, fraudes da previdência, etc. (e
bota etc. nisso !). Haveria, é claro, alguns riscos:
- Meritíssimo, este homem é acusado de furto.
- Tragam o diamante da lei.
O diamante é trazido, colocado diante do réu
e observado.
- É inocente. O senhor está livre, pode
ir. Está encerrada a sessão. Guardem o diamante
da lei.
- ??????
- O quê ?! O diamante sumiu ?! Guardas ! Não
deixem esse homem sair !
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