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Pércio de Moraes Branco é geólogo há 35 anos. Autor
de 3 livros (Glossário Gemológico, Dicionário
de Mineralogia e Guia de Redação para
a Área de Geociências) e dos mapas gemológicos
do R. G. do Sul e de Sta. Catarina. Trabalha como
Supervisor de Documentação e Marketing
e Coordenador do Museu de Geologia da Companhia de
Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM)
Serviço Geológico do Brasil, na Superintendência
Regional de Porto Alegre (RS).
É consultor do Portal das Jóias, onde
escreve para a coluna Gemologia.
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Portal
das Jóias: Quando
e como você se decidiu pela Geologia?
Pércio:
Foi quase no final do ensino médio, no então
chamado curso Científico. Eu não sabia
nada sobre Geologia. Ou melhor, sabia duas coisas:
tinham me dito que o aluno recebia uma remuneração
antes mesmo de se formar e que, depois de formado,
tinha emprego certo na Petrobras. Só que nada
disso era verdade... Mas, acertei na escolha e me
considero bem sucedido na profissão que escolhi.
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Portal
das Jóias: Como
é o curso de Geologia? Foi de acordo com suas
expectativas?
Pércio:
Tirando as duas decepções acima, o curso
de Geologia da UFRGS foi muito bom, difícil,
mas bom. Foi nele que eu descobri que gosto de pesquisar,
e já no primeiro ano fui conquistado pela Mineralogia.
Quando soube que havia cristais opacos e de brilho
metálico, e não apenas transparentes
e de brilho vítreo, como eu imaginava, fiquei
boquiaberto. E naquele mesmo instante decidi colecionar
minerais. E faço isso até hoje,
38 anos depois.
Paradoxalmente, a Mineralogia foi a disciplina de
que mais gostei e, ao mesmo tempo, a que mais me exigiu
esforço para aprovação. Mais
da metade dos alunos que ingressavam no Escola de
Geologia (hoje Instituto de Geociências) da
UFRGS (então URGS) na década de 1960
eram reprovados já no primeiro ano, principalmente
em Mineralogia. Como não havia a matrícula
por disciplina como hoje, isso significava perder
um ano. Por isso, poucos alunos conseguiam o diploma
em quatro anos. Eu consegui, mas não foi fácil.
Uma coisa boa do curso de Geologia é que se
podia, na época, ter uma profissão antes
da formatura. Com o segundo ano completo, o aluno
podia registrar-se no CREA como topógrafo.
Outra coisa boa são as freqüentas viagens
de estudo. Numa delas, percorremos os três estados
do Sul e em outra conhecemos os fantásticos
Aparados da Serra, na divisa Rio Grande do Sul-Santa
Catarina. Mas, a primeira viagem durou menos de uma
hora; um dos veículos capotou, o motorista
e alguns colegas ficaram feridos, e a excursão
foi adiada.
O estudo dos fósseis (Paleontologia) não
me atraiu muito, mas se o fosse fazer hoje, certamente
iria gostar muito.
Uma falha do curso foi não nos ter dado pelo
menos noções básicas de Gemologia.
Praticamente tudo o que eu sei sobre pedras preciosas
aprendi depois e por minha conta.
Outra falha, pior ainda, foi nunca nos terem mostrado
uma mina de carvão. O Rio Grande do Sul tem
cerca de 90% das reservas e a maior produção
de carvão do Brasil, mas eu só fui conhecer
carvão dez anos depois de diplomado !
Como o curso de Geologia da UFRGS era considerado,
na época, um dos melhores do Brasil, pode-se
imaginar o que havia de deficiências nos outros
estados.
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Portal
das Jóias: Conte-nos
como foi o início de sua carreira? Quais as
maiores dificuldades que você encontrou depois
de formado?
Pércio: Eu
demorei seis meses para conseguir meu primeiro emprego.
Na época, isso era muito tempo. Mal sabíamos
nós como o mercado ficaria muito pior... Durante
muitos anos, geólogos recém-formados
foram trabalhar em setores totalmente fora da Geologia
por falta de emprego, e creio que muitos nunca assumiram
de fato a profissão.
Meu primeiro emprego, numa mina de cobre do Rio Grande
do Sul, foi uma continuação do curso
universitário. Isso porque nada do que eu fiz
ali foi aprendido na universidade. Eu fiscalizava
serviço de sondagem de uma empresa contratada,
sem nunca antes ter visto uma sonda. Eu fiz mapeamento
geológico muito detalhado, na escala 1:250,
quando sempre fizera isso com detalhe máximo
de 1:50.000.
O trabalho de geólogos (éramos dois)
na empresa ainda era novidade e, por isso, os mineiros
nos chamavam de engenheiros. Mas, a remuneração
e as condições de trabalho eram boas.
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Portal
das Jóias:
Qual
sua opinião como profissional sobre curso/profissão
aqui no Brasil? O que deveria melhorar e qual a
expectativa de um jovem em início de carreira?
Quais os cursos disponíveis no mercado?
Pércio:
Eu acho que a geologia é uma profissão
com um mercado de trabalho que ainda depende muito
de investimentos governamentais. Seria melhor que
houvesse uma participação maior da
iniciativa privada nesse setor, para que o mercado
de trabalho não dependesse tanto da atuação
governamental.
A expectativa de um jovem em início de carreira
está hoje muito ligada à presença
cada vez maior de geólogos em projetos de
Geologia Ambiental. Mas, há outras áreas
que também têm procurado esses profissionais,
como Hidrogeologia e mesmo mineração.
Há pelo menos vinte e um cursos superiores
de Geologia no Brasil, um deles aprovado recentemente
pelo MEC.
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Portal
das Jóias: Hoje,
como é no Brasil o profissional de geologia
e como o mercado de trabalho pode absorver esse profissional?
Pércio:
Depois de 1975, o mercado de trabalho começou
a piorar e não foi bom até alguns anos
atrás, quando começou a mostrar nova
vitalidade. Os projetos ambientais e a valorização
da água estão abrindo novas oportunidades
e dá para dizer que o mercado está em
expansão.
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Portal
das Jóias: Fale um pouco sobre as riquezas
minerais brasileiras e como o governo se comporta
com relação à exploração
e segurança.
Pércio:
O Brasil é reconhecidamente rico em recursos
minerais, mas, é claro, não tem tudo
aquilo de que precisa. Somos ricos, por exemplo, em
ferro, manganês, alumínio, nióbio
e pedras preciosas (como topázio,
água-marinha, turmalina
e muitas variedades de quartzo).
Mas precisamos importar cobre e chumbo, por exemplo.
Embora tenhamos uma produção significativa
de petróleo e gás natural, ainda importamos
esses combustíveis fósseis. Temos muito
carvão no Rio Grande do Sul, mas importamos
essa matéria-prima de países onde ela
é encontrada com melhor qualidade.
O aproveitamento de nossos recursos minerais é
feito de modo cada vez mais sério e responsável,
tendo-se clara consciência de que eles são
recursos não renováveis.
O impacto ambiental causado pela mineração
tem sido uma grande preocupação, e todo
plano de lavra tem hoje que prever a recuperação
das áreas degradadas. Os prejuízos ambientais
causado pela extração mineral são
muitas vezes bem menores do que se pensa, por se tratar
de uma atividade muito localizada, ao contrário
da Agricultura, que ocupa grandes extensões
de terra e que leva, muitas vezes, a intenso desmatamento.
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Portal
das Jóias: O
que deve fazer um proprietário de terra que
descobre uma pequena jazida de minerais? A quem pertence
essa riqueza e como deve ser explorada?
Pércio:
A Constituição diz que as riquezas do
nosso subsolo pertencem à nação,
não ao proprietário da terra (superficiário).
Assim, o primeiro passo a ser dado por quem descobriu
ou acreditar ter descoberto uma jazida mineral é
verificar se a área está livre, ou seja,
se ninguém é detentor de direitos de
pesquisa ou de extração mineral sobre
ela. Isso é feito em consulta Departamento
Nacional da Produção Mineral (DNPM).
Caso a área esteja livre, ele deve então
requerer um alvará de autorização
de pesquisa àquele órgão, segundo
formulários e regulamentos por ele estabelecidos.
Esse requerimento deve ser acompanhado de um plano
de pesquisa, assinado por um geólogo ou engenheiro
de minas.
Se a documentação estiver em ordem e
o plano de pesquisa for adequado, o DNPM emite o alvará
de pesquisa. Com isso, o requerente terá um
ou dois anos de prazo para fazer a pesquisa, podendo
prorrogar esse prazo por mais um ano se necessário.
Nessa fase, o proprietário da terra não
pode impedir o aceso e a realização
dos trabalhos de pesquisa, mas deve ser indenizado
por eventuais danos que venha a sofrer em decorrência
de escavações, abertura de estradas,
etc.
Concluída a pesquisa, seja qual for o resultado
dela, deve ser apresentado um relatório ao
DNPM. Ele verificará então se o trabalho
foi feito de modo correto, se foi obedecido o plano
de pesquisa anteriormente apresentado e aprovará
ou não o relatório
Se a pesquisa houver confirmado a existência
de um bem mineral em volumes e condições
de extração que o tornam economicamente
aproveitável, o titular dos direitos sobre
a área deve incluir no relatório um
plano de lavra e requerer ao Ministro de Minas e Energia
a publicação do decreto de lavra.
Só com a publicação desse documento
o interessado poderá começar a produção.
O proprietário da terra, que até então
nada ganhou, passará a receber uma remuneração
que será equivalente a 50% dos impostos que
o minerador vier a recolher.
No caso de pedras preciosas, se houver permissão
de lavra garimpeira concedida a uma cooperativa de
garimpeiros, o interessado em extrair gemas deve associar-se
à cooperativa e fazer um acordo com o superficiário.
A autorização para extrair bens minerais
é mais simples no caso de substâncias
de uso imediato na construção civil,
como areia, argila, cascalho, etc.
Mais detalhes sobre esse assunto e eventuais alterações
recentes dessa legislação devem ser
procurados junto ao DNPM.
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Portal
das Jóias: O que vem a ser a profissão
de gemólogo? É reconhecida?
Pércio: Gemólogo
é o profissional que identifica e classifica
substâncias gemológicas (pedras preciosas,
pérola, marfim, coral, gemas sintéticas,
gemas artificiais, metais nobres, etc.). Ainda não
é uma profissão regulamentada no Brasil.
Algumas universidades dão cursos de Gemologia,
mas como disciplina opcional, não obrigatória.
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Já na Universidade
de Caxias do Sul, o curso de Tecnólogo em Produção
Joalheria tem a Gemologia como disciplina obrigatória.
Outras entidades, como a Escola Gaúcha de Joalheria,
IBGM, Ibragem e ABGM também dão esses
cursos. |
Portal
das Jóias:
Como funciona o Museu de Geologia e como a população
pode ter acesso à essas informações?
Pércio:
O Museu de Geologia, que a Companhia de Pesquisa de
Recursos Minerais (CPRM) mantém em Porto Alegre
(RS), tem várias linhas de atuação,
todas elas com prestação de serviços
totalmente gratuita:
- mantém aberto à visitação
pública seu acervo permanente de minerais, rochas
e fósseis, com material procedente de 47 países;
- oferece guia especializado para visitas em grupos.
- mantém o Projeto Apoio a Escolas (PAE), que
inclui palestras em escolas, doação de
coleções de minerais e rochas, visitas
de escolas ao Museu, etc.
- participa do Pergunte a Um Geólogo (PUG), projeto
criado no Museu e que hoje tem abrangência nacional,
com coordenação no Rio de Janeiro, para
responder consultas sobre qualquer área da Geologia;
- presta assessoria técnica a outros museus;
- fornece bibliografia (cartilhas e folders) sobre diversos
assuntos ligados à Geologia e ao trabalho do
geólogo.
- promove exposições temporárias,
com distribuição de folders e amostras
grátis de pedras preciosas;
- promove divulgação científica,
inclusive através da Internet.
Informações sobre nosso trabalho estão
no site
www.cprm.gov.br/sureg-pa/museu.html.
Elas podem ser obtidas também por e-mail: museugeo@pa.cprm.gov.br.
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Portal
das Jóias: Que conselho você daria
ao jovem que quer ingressar nessa área?
Pércio:
Eu aconselho seguir a carreira de geólogo àqueles
que estão dispostos a fazer trabalho ao ar
livre e a viajar bastante. Há, é claro,
atividades que podem ser desenvolvidas apenas em escritório
ou laboratório, e a participação
cada vez maior dos geólogos nos projetos ambientais
propicia oportunidades de exercício da profissão
em centros urbanos e em áreas não muito
distantes deles. Mas, o contato íntimo com
a natureza e o conhecimento de diversificados ambientes
geológicos só se consegue indo ao campo.
Os geólogos dizem que Geologia entra pelos
pés, ou seja, se aprende caminhando no campo.
Respeito os geólogos que querem ficar no laboratório
ou no escritório, mas admiro os que vão
ao mato; os que têm coragem de percorrer estradas
que não sabem bem aonde vão levá-lo;
os que procuram conhecer os minerais e as rochas visitando
minas, garimpos e pedreiras, e não apenas museus.
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