“MODELANDO A COPA COM CERÂMICA PLÁSTICA!”

Por Raquel Hetmanek
Artesã
E-mail: raquelhetmanek@hotmail.com

Sempre gostei de transformar coisas simples em algo que tivesse propósito. É mais ou menos como a mágica da culinária, que transforma farinha e açúcar em bolo, cujo propósito é servir de alimento.
O artesanato na minha vida surgiu assim, da vontade de transformar meus dias simples em dias especiais.
Sou apaixonada por artesanato desde que me entendo por gente... quando criança, fazia roupas pras minhas bonecas de papel, assim como casinhas de papel. Depois, já adolescente, fiz cursos do SENAC por correspondência, e me lembro em particular do curso de letrista, que ensinava a escrever em várias superfícies, inclusive pano. Também era leitora da antiga Faça Fácil e acabei aprendendo a fazer cartões de papel vegetal e aqueles em 3D, que saltam o miolo quando são abertos... foi quando tudo começou...

Eu já tinha uns 15 anos e queria entrar pro mundo dos negócios... pedi ao meu pai que levasse pra seu escritório meus cartões, pra tentar vendê-los. Deu certo e comecei a fazer também marcadores de livros. Fiz umas aulas de bordado em ponto cruz na Casa Arthur, sempre gostei de misturar tudo, de experimentar. Minha avó materna era costureira e dizia que eu levava jeito. Comecei costurando as barrinhas dos panos pra bordar...Eu fiz segundo grau técnico em turismo, e isso me deu a minha profissão. Com 17 anos comecei a trabalhar em uma agência e as oportunidades de viagem surgiram uma após a outra. Pronto: meu mundo se ampliou de vez !!!! Fui passeando pelo mundo e conhecendo novos artesanatos. Queria fazer tudo quando chegasse em casa !

E em 2002 fui trabalhar em um agência cuja proprietárias eram meninas chiques. Duas irmãs, Anjinho e Gigi. Um dia, um colar da Anjinho arrebentou e como eu sempre ajeitava tudo pelo escritório, ela resolveu me pedir pra consertar. Nós trabalhávamos em uma das ruas do famoso Sahara aqui do Rio, e foi fácil encontrar o material para o renascimento daquele colar e surgimento dos próximos mil !

Começamos montando colares de murano. Em pouco tempo, a gente vendia mais colar que viagem, era uma delícia !!!!
Colocamos as peças pra vender em um hotel em Búzios, e o sucesso veio imediatamente. Mas não encontrávamos as peças que queríamos, no formato, cor, e tamanho que atendessem à nossa imaginação... foi quando a Gigi em 2004, muito curiosa e poderosa, descobriu a massa FIMO.
Compramos um monte de bloquinhos de FIMO. Fomos pra casa da Anjinho e começamos a tentar mexer na massa... nossa, foi um desastre ! Não tínhamos idéia de nada e produzimos as peças mais horrorosas que eu já vi ! Voltamos à loja e perguntamos se havia alguém que pudesse nos dar aula.

Foi quando conheci a Karini Pires, uma mineira muito talentosa, que já trabalha com a massa há 10 anos. Fui pra sua casa à noite (ela mora no Rio há algum tempo) e arrastei comigo meu marido pra ter aula, assim, ele poderia me ajudar caso eu esquecesse alguma coisa depois, tentando refazer a técnica de millefiori.
Com uma aula, tudo mudou. Fui colocando a mão na massa literalmente (adoro essa expressão pra falar de cerâmica plástica), comprando livros e ouvindo muito as broncas do meu marido, que é arquiteto e japonês, fera em maquetes, ou seja, o rei do detalhe! Fui estudando a mistura das cores, passei a usar luvas pra não deixar impressão digital, a buscar formas mais perfeitas... eu testo todas as peças antes de vender, pra ter certeza que estão confortáveis, no tamanho apropriado.

Desenvolvi uma pecinha em massa pra colocar no final do colar, e assim equilibrar o peso da peça no pescoço.
Eu produzo minhas peças em casa, depois do trabalho ou nos finais de semana. Mês passado ganhei um quarto novinho, planejado especialmente para estimular minha criatividade, só para poder “brincar de massinha”, repleto de materiais para artesanato e fotos das pessoas importantes na minha vida, que me inspiram.
No começo, minhas peças agradavam mais as adolescentes, porque a massa é bem colorida e a garotada adora.

As cores chamam a atenção dos olhos. Mas hoje, consegui conquistar minha mãe e suas amigas, com peças mais modernas e chiques. Eu expus em algumas feiras no ano passado, o que é bem legal pra divulgar o trabalho e também pra ouvir o que as mulheres buscam quando compram uma bijuteria. Mas a maior parte das vendas acontece através de alguém que viu uma peça em outro alguém ou ganhou de presente, ou seja, indicação, que pra mim, é o melhor marketing. O maior desafio é criar peças masculinas.

A cerâmica plástica conquista pela versatilidade. Minha irmã mais velha acha o máximo chegar na minha casa com uma idéia e sair de lá com um colar no pescoço. Ela vai dizendo o que quer e eu vou misturando, cortando e moldando, até surgir uma peça exclusiva.
No ano passado, 2005, comecei a me profissionalizar, apesar de não ter deixado meu trabalho em turismo de lado. Desenhei o rosto da Hello Kitty na massa, em millefiori, porque esse foi o tema escolhido por minha sobrinha para sua festa de aniversário, e quis fazer os brindes de acordo com a personagem. Muita gente me pergunta como pude colocar a Hello Kitty dentro daquele caninho. Não sei ! Eu sou super frustrada por só saber desenhar casinha e bonequinha palito... com a cerâmica plástica eu posso tudo, escrever e até desenhar. Realizo projetos que nunca consegui através de outros materiais. Em dezembro, tive uma peça fotografada pela revista Claudia.

Nossa, foi uma delícia ver meu trabalho publicado em tiragem nacional ! Foi quando surgiu a necessidade de ter um site.
( www.byrhet.com )
Não apenas para alcançar um público maior, mas principalmente para mostrar a versatilidade da cerâmica. Além das bijuterias, publiquei fotos de garrafas, potes, chaveiros e bonecos. O projeto do site ainda está crescendo, pois resolvi estudar web designer e programação pra poder ter uma página que fosse realmente a minha cara.

Eu gosto muito de me envolver em cada projeto que idealizo.
Além das peças prontas, vendo entremeios pra quem monta bijuterias e dou aulas. Sou formada em Letras e apesar de não exercer a profissão, adoro passar adiante meus segredos, compartilhar conhecimento.
Acredito que cada um tem o seu estilo de criação, e nunca um trabalho vai ficar igual ao de outra pessoa.
As idéias para as peças surgem simplesmente.
É uma mistura de inspiração e seleção daquilo que absorvo pela vida. Eu me sento e vou brincando com a massa. A cerâmica plástica me dá a possibilidade não apenas de realizar as minhas idéias, mas de alcançar os outros, entrar pela vida deles e fazer parte.
Eu sempre gostei de presentear as pessoas com coisas especiais e únicas, por isso o artesanato sempre me foi muito útil. Não apenas como ócio criativo, mas principalmente por me permitir dar um pedaço de mim pra alguém que eu gosto. E a cerâmica plástica me permite ser exclusiva e versátil. Cada peça que eu produzo é única, assim como a pessoa que a recebe de presente ou compra.
Meu colar para a Copa do Mundo surgiu da história da minha vida. Confeccionei a bandeira dos países com os quais tenho afinidade, para que junto ao Brasil, representassem meus antepassados, minha família, meus amigos e meu amor por viagens. É uma homenagem às pessoas e lugares que visitei e que fizeram de mim o que sou.
Hoje eu “brinco” também de decoupage, velas, costura... gosto de transitar de um mundo para o outro, misturar os materiais à cerâmica. Faço caixas e velas com aplicações de FIMO e coloco botões de massa nas minhas roupas. Outro dia, estava saindo de casa e o botão da calça jeans caiu. Imagina, como eu ia substituir aquilo ? Nem pensei duas vezes, peguei uma pecinha já assada de FIMO e costurei no lugar. Ficou tão legal, que o que era provisório virou permanente. Assim como a massa na minha vida já é permanente, porque tudo o que penso em criar, ela me permite e vai além. Eu sou apaixonada por esse material. E nada melhor que fazer coisas pelas quais você é apaixonada...

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