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Desde menino freqüentei
o ateliê de Caio Mourão e me encantava
com a magia do fogo sobre o metal. Creio que minha
vocação surgiu nessa época. Aos
19 anos tornei-me aprendiz de Caio. Aprendiz à
moda antiga: passava o dia no atelier, aprendendo
a fazer jóias, a conhecer pedras, ajudando
a limpar as máquinas e demais atividades de
um joalheiro. De aluno-aprendiz passei a professor
assistente do curso de joalheira básica. No
atelier de Iguaba tive as primeiras noções
do trabalho com fundição, moldes em
borracha e cera perdida e tornei-me sócio de
Caio quando o atelier de fundição foi
trazido para o Rio. Participei de diversos eventos
e exposições. Depois parti para a carreira
solo, montei meu próprio atelier, tornei-me
sócio da Galeria de Artes Plural, onde, além
de jóias, eram expostas obras de pintura e
escultura. Ao mesmo tempo iniciava meu aprendizado
naquela que se tornaria minha segunda profissão:
a fotografia. Em 2000, em Uberlândia, MG, onde
dediquei-me exclusivamente à fotografia, no
Fred Pinheiro Studio Fotográfico, tendo como
clientes as principais agências de publicidade
locais , e comercializando minhas fotos também
através do banco de imagens Keystone e AGB
Photo. Em 1997 retornei ao Rio e à joalheria.
Em 2001 já estava em São Paulo, com
a Psicose Jóias, na Vila Madalena. Em 2004
a Psicose transferiu-se para Búzios, RJ. Atualmente,
em nova fase, de volta ao Rio de Janeiro e às
aulas no Atelier Mourão, continuo produzindo
minhas jóias. |
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#Portal
das Jóias: Quem é Fred Pinheiro?
Fred Pinheiro:
Bem, falar da gente é sempre meio difícil,
mas acho que posso tentar resumir.
Fred Pinheiro é um artesão joalheiro,
separado por duas vezes, duas filhas, morando e trabalhando
no Rio de Janeiro, com 43 anos de idade, sendo que
desses, 23 são dedicados à joalheria
de autor. Desde novo sempre tive grande interesse
pelas artes em geral e fiz diversos cursos de desenho,
fotografia e vários outros, sempre ligados
à arte, até que me encontrei na joalheria
onde permaneço até hoje.
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#Portal
das Jóias: Qual é a sua formação
profissional?
Fred Pinheiro:
Como disse, fiz cursos em várias áreas
das artes plásticas, mas desde a infância,
quando era amigo dos filhos de Caio
Mourão e freqüentava seu atelier em
Ipanema, o trabalho com o metal despertava meu interesse,
e o Caio brincava dizendo que um dia eu trabalharia
com ele. Mais tarde, aos 19 anos, isso veio a se concretizar
pois nessa época Caio voltava de sua temporada
em São Paulo, onde dava aulas na Escola Nova,
remontava seu atelier em Ipanema e me chamou para
trabalhar como seu aprendiz. Esse aprendizado se deu
da forma antiga, quase medieval, e agradeço
ao Caio por isso. Eu fazia de tudo dentro do atelier
e dessa forma aprendi não só a joalheria,
mas também como cuidar de todos os aspectos
ligados a ela, desde a limpeza das ferramentas até
a montagem de uma exposição e comercialização
das peças.
Mais tarde tornei-me professor assistente nos cursos
de joalheria dados por Caio Mourão em seu atelier
e sócio no curso de Fundição,
moldes em borracha e cera perdida.
Fiz também alguns cursos extra, como cravação,
e outros não ligados à joalheria, mas
que influenciaram meu trabalho e vivencia profissional.
Atualmente, além do meu trabalho como joalheiro,
dou cursos no Atelier Mourão em Ipanema. |
#Portal
das Jóias: Como e quando você
percebeu que a joalheria faria parte de sua vida?
Fred Pinheiro:
Acho que desde o início, aos 19 anos, quando
comecei a trabalhar com o Caio, nunca tive dúvidas
a esse respeito. O trabalho com o metal me encantava,
assim como encanta até hoje.
Existe no metal algo de mágico que vai além
da nossa compreensão e das técnicas
formais da joalheria.
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O fogo, as ligas, as transformações
que ocorrem e até mesmo a criação
de uma peça são muito mais do que técnicas
que podem ser descritas em um livro ou ensinadas em
uma aula. Não consigo me enxergar fazendo outra
coisa - até tentei, mas sempre acabo retornando
para a joalheria de autor que é onde me sinto
realizado profissionalmente. |
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#Portal
das Jóias: Como é desenvolvido
e executado um projeto seu?
Fred Pinheiro:
Um projeto meu segue sempre muito mais a intuição
do que qualquer outra coisa. Na maioria das vezes
nem tenho um desenho ou esboço a seguir e
sim uma forma abstrata que imagino e tento transportar
para o metal. A joalheria de arte é como
uma micro escultura que deve se adaptar ao corpo
e até mesmo fazer parte dele. Acho que na
realidade somos apenas ferramentas de alguma coisa
maior do que nós e com as mãos damos
formas a isso. Por isso gosto de criar e executar
pessoalmente todas minhas peças e dessa forma
o cliente vai poder ver na peça a minha marca
pessoal que é mais do que uma assinatura
na peça. Cuido pessoalmente de todas as etapas,
desde a liga e laminação do metal
até a venda.
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#Portal
das Jóias: Que tipo de material você
aprecia e utiliza na confecção de suas
peças e para que público é direcionado
o seu trabalho? |
Fred Pinheiro:
Eu utilizo preferencialmente a prata, mas não
abro mão de outros metais e materiais. Tudo
é válido para se dar forma a uma idéia.
Ao contrário da joalheria tradicional, na
qual a jóia se resume a uma esmeralda cercada
de brilhantes e espetados em uma tira de ouro, na
joalheria de autor a inovação, a exclusividade
e principalmente a criação são
o que realmente importam. Você oferece ao
cliente mais do que uma jóia e sim um objeto
de arte e design que se diferencia de todos os outros.
O público que consome esse produto que mais
do que a simples ostentação não
se conforma em ter o que todos têm. Esse público
procura um diferencial, mais do que apenas o material
utilizado. Valoriza o desenho, a criação,
a exclusividade antes de qualquer coisa.
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#Portal
das Jóias: Como você vê
o design e o designer de jóias aqui no Brasil?
O que você acha que ainda está faltando
para os nossos profissionais artesãos? |
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Fred
Pinheiro: O designer de jóias aqui no
Brasil ainda não é muito valorizado,
mas não acredito que a choradeira tradicional
faça sentido. Moramos em um pais onde existem
diversas urgências a serem cuidadas e trabalhamos
com um produto supérfluo que não faz
parte das necessidades básicas de ninguém
e devemos ter isso em mente. Nosso público
é muito restrito e parte dele, apesar de possuir
os meios, não possui o desejo de consumir esse
tipo de trabalho e prefere se manter na segurança
do conhecido, ao invés de ousar. Tudo é
uma questão de se educar o olho e o gosto desse
público e isso toma tempo. Muita coisa já
mudou e tantas outras ainda têm de mudar, mas
a joalheria de autor aos poucos vai conseguindo seu
espaço e basta olhar para a quantidade de cursos
que existem atualmente para se constatar isso e também
não é à toa que tantos se autodenominam
designers atualmente. |
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#Portal das Jóias:
Se você fosse hoje homenagear um profissional
designer quem seria a pessoa mais indicada e por quê? |
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Fred Pinheiro:
Mesmo correndo o risco de ser óbvio, eu escolheria
o Caio Mourão. Acho que o que somos hoje devemos
a ele, e eu mais ainda. Caio foi não só
um grande joalheiro como também um grande artista
na forma ampla da palavra. Foi uma pessoa especial
na joalheria e na minha vida e hoje temos por aí
diversos joalheiros, conhecidos ou não, que
de alguma forma foram influenciados por seu trabalho
e mais ainda por sua pessoa. Ele antecede a atual
profusão de designers e gostava de se auto-intitular
artesão joalheiro.
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#Portal das Jóias:
Existe uma particularidade em sua vida que desviou
você do caminho da arte por certo tempo. "O
mundo das drogas", que rendeu a história
de um livro. Poderia falar um pouco sobre esse assunto
que atinge nossos meninos e meninas? Como foi sua
trajetória e retorno?
Fred Pinheiro:
Eu comecei com as drogas muito cedo, antes mesmo
das artes, e devo em grande parte a minha recuperação
à arte e principalmente à joalheria.
Foram tempos difíceis, complicados e sofridos,
que deram origem ao livro “Bicho Solto”, escrito
por Ivan Sant Anna segundo meus depoimentos e lançado
em 2005 pela Editora Objetiva. Nessa época
estive perto de morrer em diversas ocasiões
e me envolvi também com crimes e se estou
aqui hoje é em grande parte ao meu trabalho
como joalheiro e à ajuda de duas grandes
pessoas que foram Caio Mourão e o Dr. Jorge
Jaber que se tornou meu grande amigo também.
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#Portal
das Jóias: Fale um pouco do Fred Pinheiro
hoje. Suas expectativas e desejos para o futuro de
sua vida principalmente na área profissional.
Fred Pinheiro:
O Fred Pinheiro hoje é principalmente uma pessoa
que tenta antes de tudo viver em paz e de bem com
a vida. Tento, através do meu trabalho, dar
vazão ao que penso e sinto, e cada pessoa que
possui uma peça minha possui também
um pouco de mim. Não sou do tipo que ambiciona
fama e fortuna, e minha maior satisfação
é ver o meu trabalho reconhecido por alguém,
seja quem for. Após fechar a minha loja em
Búzios e retornar ao Rio estou recomeçando
meu trabalho pessoal com mais força, já
que a administração de uma loja e tudo
que isso significa tinham me forçado e deixar
meus projetos pessoais em segundo plano. Junto com
minha filha Irene Pinheiro que atualmente gerencia,
organiza e administra meu trabalho, espero retomar
alguns projetos que ficaram na gaveta e dar um novo
impulso a meu trabalho. |
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#Portal das Jóias:
Que conselho você daria hoje para quem está
querendo ingressar na carreira de designer e joalheiro?
Fred Pinheiro:
Acho que acima de tudo temos de inovar, ser diferentes.
O que já foi feito está feito e não
precisa que ninguém repita. O diferencial
a ser oferecido é a inovação,
a criação. Este nem sempre é
o caminho mais fácil e seguro, mas com certeza
é o mais gratificante e que no futuro renderá
os melhores frutos. Olhem tudo, assimilem, transformem.
As possibilidades são infinitas e estão
ai para serem exploradas, basta ousar e ir além.
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