Caio Mourão
O papa do design joalheiro no Brasil
(1933 – 2005)
Por
Kátia Faggiani
Designer de Jóias
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Faleceu
neste domingo o pintor,
desenhista,
escultor
e joalheiro
Caio
Mourão, aos 71 anos. Foi com profunda surpresa,
pesar e tristeza que recebi esta noticia. A pouco menos
de 2 semanas ele estava me auxiliando em minha pesquisa
de mestrado da PUC onde estou me referindo a seu trabalho
com materiais não convencionais pois ele sempre
conseguiu mostrar que jóia
é e sempre será jóia,
desde que um de nossos ancestrais pendurou uma concha
ou pena no pescoço. Para ele o importante sempre
foi a criação que vem do sentir, da capacidade
artesanal e dos materiais disponíveis.
Caio
notabilizou-se pelas jóias
de vanguarda que criou na década de 60, quando
o padrão da joalheria brasileira seguia as escolas
clássicas internacionais. Sempre usou sua fonte
inesgotável de criatividade para derrubar fronteiras
em diversas áreas da criação. Quebrando
paradigmas e sempre em busca da inovação,
de diferencial, ele revolucionou o conceito de jóia
no país.
No que depender de mim, agora, mais do que nunca, pretendo
dar continuidade ao projeto que estava desenvolver junto
ao Caio Mourão,
divulgando seu trabalho em minha tese de mestrado e
posteriormente em um livro, e assim, contribuir na divulgação
de sua obra de arte para a posteridade.
Caio
deixa cinco filhos, Paula, Diogo, Livia, Thiago e Thadeu,
e quatro netos, Victor, Arthur, João e Eduardo.
Nestas horas, palavras apropriadas são difíceis
de encontrar, mas a eles, deixamos aqui nossas sinceras
condolências.
Quando se perde um ente
querido, perdem-se as palavras, os gestos, os sorrisos,
um vazio se assola, uma saudade se instala, os que aqui
ficaram entristecem e se calam e tudo fica além
da nossa compreensão. Mas, um grande guerreiro
não parte de nossas vidas, fica sempre em nossos
corações, onde as lembranças dos
melhores momentos são eternizadas. Portanto,
nos resta eternizar essas lembranças e desejar
que ele descanse nas mãos de amor e graça
do Deus bondoso. |
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Lembrança
dos melhores momentos
O nome de Caio
Mourão está fortemente
ligado à joalheria,
mas ele entrou no mundo das artes através
da pintura,
tendo sido aluno de Aldo
Bonadei e colaborador de Antonio
Bandeira e Di
Cavalcanti em vários painéis.
Caio
nasceu em 1933 em São Paulo onde viveu
até 1957. Em 1956 inicia-se em Joalheria.
Em 1959 participa da criação
da revista Senhor. Pintor
e desenhista,
expõe na II Bienal de São Paulo
e em 1963, conquistou o 1º Prêmio
Internacional de Joalheria, na VII Bienal
de São Paulo.
Em 1957 muda-se para o Rio de Janeiro e apesar
de ter nascido em São Paulo, dizia
que era carioca por adoção:
ele foi um dos fundadores da Banda de Ipanema.
A convite do
estilista Pierre
Cardin,
esteve em Paris no final dos anos 60 e lá
trabalha como designer de jóias. Um
ano depois vai lecionar design em Portugal,
convidado pelo Ministério dos Estrangeiros.
Com os portugueses aprende técnicas
de fundição e prataria pesada.
De volta ao Brasil, no fim de 1969, começa
a abrir caminho para o que veio a se chamar
joalheria
de autor.
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Ao longo de sua
carreira, idealizou diversos troféus: "Gaivota
de Ouro", dos festivais internacionais
de canção (1970) e, paralelamente,
o troféu sátira "Urubu
de Prata", concebido em parceria com
o humorista Henfil
(1971), e prêmio "Shell
de MPB", criado em 1981 - foi a primeira
premiação à música
popular do país oferecida por uma empresa
privada. Todo ano, um compositor consagrado recebe
a homenagem pelo conjunto de sua obra com o troféu
desenhado pelo joalheiro.
Na novela "O
rebu", da TV
Globo (1974-1975), fez o papel de si mesmo.
Caio Mourão
também foi recebido no programa de TV
GEMABRASIL, por Rodolfo
Bottino apresentando o "prato
do dia": talharim
caseiro com feijão mulatinho. |
Apesar de sua forte
ligação com o Rio e com Ipanema,
Caio
queria um pouco mais de tranquilidade para criar
e expandir seus limites. Assim, na década
de 80 foi morar em Iguaba Grande, na Região
dos Lagos. Nessa época, além da
prata
e do ouro,
começa a utilizar aço
e imãs,
criando suas esculturas móveis. A partir
de 1994, sua obra ganha novas dimensões,
com peças de aço
inox e ferro
trabalhados com solda elétrica, que chegam
a 3 metros de altura.
Ao longo dos últimos anos, Caio
passava mais tempo fazendo esculturas do que jóias,
se dividindo entre a casa-atelier de Iguaba e
o Atelier Mourão, em Ipanema, onde funciona
a mais tradicional escola de joalheria do país.
Contador de história reconhecido por todos
em Ipanema, também se dedicou a escrever
crônicas para a revista
Caros Amigos onde
nunca deixava de elogiar o Rio e publicou dois
livros: Prata
da Casa, estórias de um funileiro
e Prata da
Casa II, onde reúne
crônicas do autor e ilustrações
do cartunista
Zé Dassilva.
O prefácio é de Ruy
Castro. |
| “Contudo,
o Rio de Janeiro continua lindo. E, para os que
possam alegar que beleza não põe
a mesa, defendo-me com Vinicius afirmando que
beleza é fundamental. Podem fazer tudo
para acabar com a cidade, com seu charme, sua
beleza, seu Carnaval e sua alegria de viver, mas
não conseguirão, o Rio é
muito forte, corre sozinho e ruma para o mar.
Tem seus encantamentos e a sua força, já
enfrentou muita coisa.” (Caio Mourão para
a revista Caros Amigos) |
Homem de muitos amigos,
Caio tem
entre seus admiradores artistas e intelectuais,
com os quais conviveu na época dourada
de Ipanema, e que o chamavam carinhosamente
de "funileiro",
como ele conta em "Prata
da Casa".
Para reflexão de quem aqui fica e pretende
trilhar os caminhos da joalheria, deixo aqui
algumas palavras ditas pelo mestre em entrevista
ao Portal
das Jóias:
“Não existe
técnica. Remar contra a correnteza e
os lugares comuns. Devem realizar um desenho
seu, com seus sentimentos, com o material que
você escolheu, pode ser até prego
de ferradura enferrujado, mas, se for feito
com carinho e bem trabalhado irá ter
seus admiradores. O designer, hoje, deveria
usar tapa-olhos como o dos cavalos, e só
olhar para frente. Nada de colar do colega da
carteira do lado. Em suma, evitar modismos e
fazer algo próprio. É mais difícil,
mas uma vez lá, ninguém derruba.
Não olhe para o lado, tire seus desenhos
de dentro de você, realize a peça
com carinho e cuidado. E olhe só para
frente, nunca para os lados.” (Caio
Mourão)
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Chegou, enfim, o descanso
Tempo de deitar o corpo, repousar os olhos
Fechar os lábios, ensurdecer os ouvidos
Imobilizar as mãos, parar as pernas
Celebrar a Inércia
Festejar a palidez
Embriagar-me do silêncio
Viver de miragens cultuando a ilusão
Abraçar as sombras, beijar a brisa
Tornar-me personagem de epopéias
Tendo vivido uma vida menos heróica,
com menos prodígios,
mas, também, com menos pecados
Voltar ao pó, juntar-me ao vento
Sentir tudo, sentindo nada
Procurar virtudes
Destruir férulas
Divertir-me em um féretro
Ser coberto por flores
Ser vizinho da terra
Não se alimentar mas compartilhar o
pão
Personificar o fim demonstrando o início
Estar a beira do princípio proporcionado
pelo final
Libertar me das agonias e das inseguranças
Procurar por belezas e compaixão
Caminhar pelas nuvens, dançar com anjos
Agarrar-me a luz
Fazer-me rebento de um sonho inacabado
Ser insípido, incolor e inodoro
Despir-me da falsidade e perversão
Alimentar minhas carências
Sentir nas veias a bondade
Me libertar da solidão
Ser monumento do passado
dar mais valor a integração
Mergulhar no infinito
Desacorrentar a alma
Desamarrar o coração
Encontrar-me com o Criador e questionar a
criação.
Ordo Amoris
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