Queria entrevistar alguém para a coluna, mas não consegui entrar em contato com as pessoas que eu queria, então resolvi escrever sobre o assunto. Já que a coluna fala de portadores de deficiência, e como fiquei um tempo afastada da coluna não deixei de reparar na novela Viver a vida. Que foi a primeira novela, a mostrar o dia a dia de um cadeirante, e isso foi muito importante, a novela fez um papel de utilidade pública.
Apesar da personagem Luciana (vivida pela atriz Alinne Moraes), possuir condições de um tratamento que a maioria não tem como ter, Luciana desde o momento em que soube de sua tetraplegia mostrou seu sofrimento e revolta. O que é normal, sentir rejeição a situação, pois na maioria dos casos é irreversível.
No primeiro momento surge o choque e a revolta, depois dependendo da lesão e das dificuldades do deficiente vem também a depressão, e é aí que a pessoa tem a oportunidade de encarar suas dores físicas e psíquicas e ou ela aprende a aceitar seus limites e começa a "renascer" com algo que o motive a fazer essa grande transformação, ou continua revoltado e rejeita sua própria imagem e situação, continuando na depressão, o que o faz sofrer ainda mais e infelizmente também pode acontecer.
Luciana conseguiu através da força e empenho de seus pais e de seu médico e amigo Miguel, que depois se tornou namorado e posteriormente marido, começar a renascer (logicamente com todo aparato que um deficiente precisa) aos poucos, colocando e encarando seus medos e superando cada dia como se fosse uma conquista, retomando assim sua auto-estima e "moldando" a nova Luciana, sabendo que nem todos os limites pode vencer, mas aprendendo a conviver e aceitá-los.
Inclusive existe uma campanha após a novela feita pela própria atriz que interpretou a personagem, mais uma fez reafirmando a idéia do personagem ser um veículo de utilidade pública, como vários outros personagens com outros problemas, que já foram tratados nas novelas.
O que mais impressionou, inclusive a atriz, foi que a novela mostrou a vida de uma jovem modelo cheia de planos para o futuro, onde sua vida foi drasticamente mudada por um acidente de ônibus. A Alinne Moraes mesmo, em entrevista para o Fantástico, declarou que pensou que poderia ter acontecido com ela, já que também já foi modelo antes de se tornar atriz.
Não é só na televisão brasileira, que os portadores de deficiência vem ganhando espaço com personagens.
O seriado Glee, que é um fenômeno de crítica e público nos Eua e no mundo, tem um personagem cadeirante.
O seriado tem como história principal, a luta de um professor para manter e melhorar um grupo de coral, que na sua época de estudante era muito popular. Não é um típico seriado para adolescente americano, ele usa de clichês, com ironia para falar e nos fazer pensar sobre eles, em ser feliz como você é, que é justamente o maior desafio para o adolescente.
Os integrantes desse coral são, a princípio, os "excluídos" da escola, uma oriental com gagueira, um gay, uma negra fora dos padrões de beleza, um cadeirante e uma aluna judia.
Logo de início o professor descobre um jogador de futebol (muito popular), que ao longo do seriado se vê cobrado por ser popular, ser capitão do time de futebol e ao mesmo tempo andar com os "excluídos" (o que eles lá nos EUA chamam de Loser = perdedor).
Com a entrada de um jogador de futebol americano, entraram mais 3 jogadores e também entraram três líderes de torcida.
De início, essa combinação não dá muito certo, pois as líderes de torcida, estão como espiã da professora de educação física para criar intrigas e confusão. Já que ela, quer acabar com o coral, pois a sua verba foi diminuída por causa do coral. Mas as líderes de torcida, encontram um espaço onde elas são ouvidas, um professor que se preocupa com seus alunos e suas necessidades, ao contrário da professora de educação física, que trata mal suas líderes de torcida, se impondo através do medo, e tendo como único objetivo ganhar os campeonatos que participa, não importando o que elas tenham que fazer para ganhar as competições.
Elas até tentam criar intriga entre os alunos do coral, mas nesse meio tempo a capitã das líderes de torcida engravida, e é expulsa do grupo (mesmo ela sendo a capitã), pela professora de educação física. Já que ela grávida não poderia participar dos campeonatos, mas o grupo de coral, aceita sua gravidez e a apoia nesse momento tão delicado.
E o seriado, por ser uma comedia musical, trata de assuntos delicados com leveza, principalmente as questões do cadeirante Artie, que ate então não era notado por ninguém até sua entrada no coral. E o seu talento, já que ele tem uma linda voz e dança bem com sua cadeira, entrar no clube foi uma oportunidade de mostrar os seus talentos, e de se inserir na sociedade, saindo do ostracismo que muitas vêzes os portadores de deficiência vivem.
Quando está para acontecer a 1ª competição deles, eles iriam precisar alugar um ônibus especial para o Artie ir junto com o grupo, que à princípio, todos mandam ele ir com o pai dele de carro, enquanto o grupo iria no ônibus. Acostumado a ser colocado em segundo plano, primeiro ele aceita a decisão do grupo, mas fica muito chateado.
O professor percebe, e fica triste em ver como o grupo foi egoísta e não pensou nas necessidades do colega, e os obriga a fazer doces para conseguir verba para o ônibus especial. E de forma genial, faz com que todos do coral usem durante uma semana a cadeira de rodas, algumas horas por dia, para poder sentir como é ser cadeirante e das dificuldades que ele passa no dia-a-dia. Além disso, monta um número em que todos cantam e dançam em cadeiras de rodas.
Assim o grupo, literalmente sentindo na pele, aprende e começa a ver as suas necessidades e dificuldades, vivendo por uma semana o que ele vive diariamente. E que é preciso, de um ônibus especial, para que ele possa ir junto do grupo, para participar da fase seletiva do concurso dos corais.
Como se trata de uma comedia musical, que dá uma roupagem moderna para antigos e novos sucessos, ele canta e dança a música: "Dancing with Myself", e dá um show.
Dancing with Myself
Artie canta e dança sozinho. Não perca sua ótima interpretação do
sucesso de Billy Idol
http://canalfox.com.br/br/series/glee/videos/?bcpid=43786968001&bclid=37747036001&bctid=64025847001 Wheels
Para o professor Schuester não existem diferenças entre os alunos.
http://canalfox.com.br/br/series/glee/videos/?bcpid=43786968001&bclid=37747036001&bctid=57142008001 Rolling On The River
A galera do Glee aprende como é o dia-a-dia de Artie.
Não perca essa aventura engraçada!
http://canalfox.com.br/br/series/glee/videos/?bcpid=43786968001&bclid=37747036001&bctid=64519400001 Em um outro episódio, onde a aluna Rachel, que é a voz principal do coral, tem uma infecção do ouvido e garganta, e acaba ficando afônica. Fica deprimida pois, acha que vai perder sua voz e que assim vai perder tudo, que sua vida vai perder o sentido. Um colega, resolve tirá-la desse estado depressivo, lhe mostrar que existiam sofrimentos maiores e lhe apresenta um amigo.
O amigo que se chamava Sean, para surpresa de Rachel, era um ex-jogador de futebol americano, que tinha ficado tetraplégico ainda quando jogava no colégio, em um acidente num jogo. E ela que tinha dito, que sem a voz não teria nada, ficou sem graça e com vergonha do seu exagero. O rapaz em questão, apesar de estar em uma cama, fraturou a C4, não tinha muito recursos materiais e vivia "preso" à cama, mas não perdeu seu amor a vida, e achou na música um meio de sentir vivo.
Rachel vai embora, desconcertada e envergonhada por ter sido tão dramática. Faz um tratamento com antibióticos e fica boa de seu problema de saúde. Depois disso, ela volta a casa do rapaz portador de deficiência, e lhe propõe dar aulas de música. Ela então sugere que eles comecem cantando uma balada dos anos 80, já que o amigo dele deu à ela essa dica do que ele gostaria de cantar. E Rachel escolheu One - do grupo U2, fechando o episódio com a cena dos dois e intercalando com o coral cantando também.
Acho que um programa como esse, que é tão popular, mostra o portador de deficiência como um adolescente comum, com seus questionamentos juvenis e suas necessidades especiais também, em contrapartida descobrindo seus talentos como qualquer um do coral.
"One" - versão Karaokê (foi o único que eu achei com as cenas)
http://www.youtube.com/watch?v=hKNHDOcvKHI No último episódio, por eles não terem vencido o campeonato de corais, o clube terminaria, e os alunos muito abalados e perdidos com o fim do Coral, decidem fazer uma homenagem ao professor que é a alma do grupo.
E antes de começarem a cantar, contam o que eram antes do coral e dizem como eles mudaram e amadureceram. Aprenderam a respeitar cada um como são e suas diferenças, caindo os rótulos e clichês. E para mostrar o quanto são gratos ao professor por ter lhes dado essa oportunidade eles cantam "Ao Mestre com Carinho" - To Sir with Love do filme do mesmo nome. Mais para frente no episódio, eles descobrem que o coral não vai terminar.
"To Sir, with Love"
http://www.youtube.com/watch?v=-affnOS8Q3I Acho importante, a inserção de personagens portadores de deficiência nos seriados, novelas, filmes, pois eles existem, e fazem parte da sociedade, das nossas vidas e precisam de exemplo para se espelharem, para sair com os amigos, namorar, estudar, se divertir, dentro do limite de cada um, evidentemente.
Observação: Estava fazendo uma pesquisa, de fotos dos personagens, e vi a foto do ator que fez o papel do Sean, no episódio ele é tetraplégico, e descobri lendo um artigo que ele mesmo escreveu, que na vida real ele também é. Nesse artigo, ele conta como ficou tetraplégico, e que a partir disso, ele resolveu se tornar ator. Essa participação no Glee, foi a sua primeira experiência como ator profissional, e ele conta como foi o seu dia de gravação. Conta também sobre sua vontade de ser ator, e de correr atrás do seu sonho apesar de ser tetraplégico. O link, do artigo que o ator Zack Weinstein escreveu, está abaixo, e está em inglês.
Link do artigo do ator Zack Weinstein:
http://www.thewrap.com/blog-post/spinal-cord-injury-didnt-keep-me-glee-17198